QUANDO O SONHO MUDA DE CAMPO: A HISTÓRIA DE UM GAROTO QUE NÃO VIROU JOGADOR, MAS ENCONTROU SEU LUGAR NO FUTEBOL
- alexandercaus73

- 5 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de jun.
UM ADVOGADO APAIXONADO POR FUTEBOL VIRA UMA DAS MAIORES REFERÊNCIAS DO DIREITO ESPORTIVO NO BRASIL.
Algumas pessoas entram no futebol através das chuteiras.
Outras entram através dos livros.
E existem aquelas que conseguem unir as duas coisas.

A história que vou contar agora é uma dessas histórias.
Diferentemente de outros relatos que compartilho neste espaço, desta vez posso falar com absoluta propriedade sobre o personagem principal.
Porque essa é a história do meu irmão.
Quando éramos crianças, existia uma quadra de futebol de salão a poucos metros da porta da nossa casa.
Era praticamente uma extensão do nosso quintal.
Todos os dias, depois da escola, ele repetia o mesmo ritual. Entrava correndo em casa, largava o material escolar em qualquer canto e disparava para a quadra. Muitas vezes nem almoçava antes de começar a jogar.
Minha mãe precisava chamá-lo várias vezes para voltar.
E mesmo assim, quase sempre sem sucesso na primeira tentativa.
O futebol era a paixão dele.
Passava horas jogando.
Horas treinando.
Horas aperfeiçoando movimentos que ninguém havia ensinado.
Era simplesmente uma obsessão saudável por uma bola.
O curioso é que sua aparência não combinava com a habilidade que possuía.
Era magro.
Franzino.
Fisicamente parecia frágil.
Mas bastava a bola chegar aos seus pés para que qualquer dúvida desaparecesse.
Ele possuía um talento natural para o jogo.
Daqueles que chamam atenção em qualquer pelada de bairro.
Daqueles que fazem os mais velhos pararem para observar.
Mas o futebol, como a vida, nem sempre segue o roteiro que imaginamos.
Os anos passaram.
O corpo cresceu.
As exigências físicas aumentaram.
E os joelhos começaram a cobrar a conta de tantas horas dentro das quadras.
Lembro de um episódio que simboliza bem essa mudança.
Quando ele completou 18 anos, foi se apresentar ao Exército.
Como eu havia servido antes dele, um dos meus sargentos brincava que incorporaria todos os irmãos dos ex-atiradores que conhecia.
E realmente estava fazendo isso.
Mas quando chegou a vez do meu irmão, aconteceu algo inesperado.
No dia da apresentação, ele apareceu com o joelho completamente inchado.
Havia se lesionado durante um treinamento para um campeonato amador que disputaríamos na cidade.
O médico sequer teve dúvidas.
Olhou o joelho.
Fez algumas perguntas.
E o dispensou imediatamente.
Naquele momento, talvez sem perceber, ele também estava sendo afastado de um caminho que sonhava seguir dentro do esporte.
Mas é justamente aí que essa história se torna interessante.
Muitas pessoas acreditam que, quando uma porta se fecha, o sonho acaba.
Na verdade, às vezes o sonho apenas muda de endereço.
Sem poder seguir a trajetória que imaginava como atleta, ele começou a procurar outro caminho.
Inicialmente pensou em Educação Física.
Mas havia outra paixão que o acompanhava desde cedo.
O Direito.
Foi então que decidiu cursar Direito.
E dentro do Direito encontrou uma área que, naquela época, era praticamente desconhecida no Brasil: o Direito Desportivo.
Hoje a especialidade é reconhecida e valorizada.
Mas no início dos anos 2000 quase ninguém falava sobre isso.
Não existiam tantos cursos.
Não existiam tantos escritórios especializados.
Não existiam tantas oportunidades visíveis.
Mas ele enxergou algo que poucos enxergavam.
Percebeu que poderia unir profissão e paixão.
Poderia trabalhar com Direito sem abandonar o esporte.
Poderia permanecer próximo do futebol mesmo sem entrar em campo.
E foi exatamente isso que fez.
Estudou.
Especializou-se.
Aprendeu inglês.
Aprendeu espanhol.
Aprendeu francês.
Fez cursos.
Participou de congressos.
Frequentou eventos.
Construiu relacionamentos.
Investiu em networking quando a palavra networking ainda nem era tão popular quanto é hoje.
Em um desses cursos conheceu um dos maiores nomes do Direito Desportivo brasileiro.
O advogado Heraldo Panhoca, profissional que participou diretamente da construção da Lei Pelé e ajudou a moldar boa parte da estrutura jurídica do esporte nacional.
A aproximação não aconteceu por acaso.
Foi resultado de preparação.
Foi resultado de presença.
Foi resultado de mostrar que não estava ali apenas por curiosidade.
Ele queria construir uma carreira.
Meses depois, veio o convite.
E a oportunidade que parecia distante tornou-se realidade.
A partir dali, sua trajetória acelerou.
Trabalhou em grandes clubes.
Participou de negociações importantes.
Atuou em questões regulatórias complexas.
Tornou-se especialista em SAFs muito antes do tema ganhar a dimensão que possui atualmente.
Passou pelo Corinthians.
Passou pelo Santos.
Atuou na Federação Paulista de Futebol.
Participou da construção jurídica de projetos importantes dentro da indústria esportiva.
Mas talvez um dos capítulos mais curiosos da sua carreira tenha acontecido antes mesmo de sua consolidação no futebol.
Durante anos, especializou-se em casos de doping esportivo.
Defendeu atletas de alto rendimento.
Participou de processos internacionais.
Atuou perante organismos estrangeiros.
E chegou a trabalhar em situações que poucas pessoas imaginam existir.
Inclusive casos envolvendo cavalos de competição.
Muita gente não sabe, mas quando um cavalo é acusado de doping, as consequências podem atingir todo o haras.
Os impactos financeiros podem ser enormes.
Os prejuízos podem afetar anos de investimento.
E por trás desses processos existem profissionais especializados trabalhando para garantir o devido processo e a correta aplicação das regras esportivas.
Hoje, décadas depois daquela infância passada na quadra de cimento ao lado de casa, ele é reconhecido por organismos internacionais entre os principais advogados do Direito Desportivo brasileiro.
Recebeu reconhecimentos de publicações especializadas como Chambers e Leaders League.
Viaja pelo mundo.
Participa de negociações internacionais.
Atua em projetos esportivos complexos.
Já esteve em Copas do Mundo.
Já trabalhou com atletas de seleção.
Já participou de operações envolvendo clubes, federações, investidores e organizações esportivas em diversos países.
Tudo isso sem jamais abandonar o futebol.
Apenas encontrou uma forma diferente de viver dentro dele.
Essa história ensina algo importante.
Muitas pessoas acreditam que trabalhar no futebol significa necessariamente ser jogador.
Mas o futebol moderno é uma indústria gigantesca.
Existem dezenas de profissões.
Centenas de especialidades.
Milhares de oportunidades.
Nem todo apaixonado por futebol vai entrar em campo.
Mas isso não significa que precise ficar longe do jogo.
Às vezes o sonho não acaba.
Ele apenas muda de posição.
E, em alguns casos, essa nova posição pode levar muito mais longe do que a original jamais levaria.
Meu irmão não se tornou o jogador que imaginou ser quando passava tardes inteiras naquela quadra de cimento.
Mas conseguiu algo igualmente valioso.
Transformou sua paixão pelo futebol em uma carreira de alcance internacional.
E provou que, no esporte, existem muitas maneiras diferentes de vencer.





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